Janeiro 28, 2006

Mulheres na obra de Eça (V)

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   Miss Mary...

 «Por detrás do balcão envernizado, junto a um vaso de rosas e magnólias, ela estava lendo o seu «Times», com um gato branco ao colo. O que me prendeu logo foram os olhos azul-claros, de um azul que só há  nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabelos, crespos, frisadinhos como uma carapinha de ouro, tão doces e finos que apetecia  ficar eternamente, devotamente, a mexer-lhe com os dedos trémulos; e era irresistível o profano nimbo luminoso que eles punham em torno da sua face gordinha, de uma brancura de leite onde se desfaz carmesim, toda tenra e suculenta.»

Eça de Queirós - A Relíquia


Escrito por Fradique em 11:07:33 | Link permanente | Comments (1) |

Janeiro 11, 2006

Apenas um chinfrim...

«Ano Novo (preparando a carteira  o lápis):
- Este país em que vou entrar é uma monarquia ou uma república?
Ano Velho (gravemente):
- As geografias dizem que é uma monarquia... Pelo que vi pareceu-me que nem era uma monarquia, nem uma república - e que era apenas um chinfrim.
(...)
- E de que vive o País? Tem rendimentos, tem orçamento?
- Tem de menos, todos os anos, para pagar as despesas da casa, uns cinco ou seis mil contos. É a isto que eles chamam as finanças. Cada ministério...
- Um momento! Sou um simples, um ingénuo, chego... O que é um ministério?
- É uma colecção de doze homens que se encarregam (seis trotando a cavalo
atrás dos outros seis) de governar o País, isto é, de ter a mão na chave da
despensa. Quando se pertence a um partido...
- Pertencer a um partido, caro colega, vem a ser?...
É meter-se a gente num ónibus que leva aos empregos e a que puxa o chefe do partido, sempre com o freio nos dentes!
- Mas a questão da fazenda, dizia...
- É uma espécie de nó que todos, um por um, são chamados a desatar e que
cada um aperta mais. (...)»

Eça de Queirós - Uma Campanha Alegre, LIII, Janeiro 1872.


Escrito por Fradique em 18:31:24 | Link permanente | Comments (1) |