Querida Emília...


Raphael Soyer - Blond Figure (1940s). National Gallery of Art.
«Era uma mulher singularmente atraente: não era linda, era pior: tinha a graça. Eram admiráveis os seus cabelos louros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos de uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabelo que se tomasse, que se estendesse, como uma corda num instrumento, de encontro à claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do Sol.
Os seus olhos eram de um azul profundo como o da água do Mediterrâneo. Havia neles bastante império para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante sonho de se afogar naqueles olhos.
Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não pudesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquela ondulação musical, que se imagina no nadar das sereias.
De resto, simples e espirituosa.»
Eça de Queirós e Ramalho Ortigão – O Mistério da Estrada de Sintra
O folhetim que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão escreveram em 1870 é o ponto de partida para o filme «O Mistério da Estrada de Sintra», que Jorge Paixão da Costa estreia a 3 de Maio.
Com distribuição da Lusomundo, a longa - metragem é uma história de época que cruza o policial, escrito a quatro mãos para o Diário de Notícias, com a amizade surgida entre Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, numa época em que ainda pouco tinham publicado.
Os actores Ivo Canelas e António Pedro Cerdeira encarnam, respectivamente, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, numa trama que inclui ainda a história do folhetim, com a morte misteriosa do oficial britânico Rytmel. (...)»
In Diário Digital/Lusa (09-04-2007)
«Mais de 300 folhas manuscritas e emendadas por Eça de Queiróz, de dois dos seus romances e um ensaio, foram ontem doados à Biblioteca Nacional pelo banco Millennium bcp.
Os documentos andavam "escondidos" há 34 anos em arquivos de bancos que estiveram na origem da criação do Millenium bcp, tendo sido depois incorporados no seu acervo. (...)»
Restante notícia nesta morada (Diário de Notícias).

- http://www.raamatukoi.ee/cgi-bin/raamat?20193 site da Estónia, com livro a Relíquia.
- http://www.proel.org/mundo/estonio.htm lingua estónia.
«Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da Estação dos Ónibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A criatura passou - no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negro e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão de um rito triste, tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno.
Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
- E o nomezinho, hem?
Ela séria, quase grave:
- Madame Colombe, 16, Rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova do Café, a majestade de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsivamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202 mumurei, para a deslumbrar com o meu luxo: - "Moro ali, todo o ano!..." E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba - berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse para a Rua do Hélder, nº 16, quarto andar, porta à esquerda!
Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes - Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueria onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sutaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpos tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da Rua do Hélder, encontrei a porta fechada - e arrancado da ombreira aquele cartão de Madame Colombe que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do Não-ser, fora da porta que se fechara, único ser fora do mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o Universo!
- Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
- Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!»
Eça de Queirós - As Cidades e as Serras

...«E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amável Santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade deixar a cabana de algodão que ele habita no país da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bebés o seu natal!»...
Crónica de Eça de Queirós sobre o Natal, publicada na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, Brasil, 1880. Retirada deste site.

«O bisneto de Eça de Queiroz, António Eça de Queiroz, jornalista do Expresso, escreveu um livro polémico, com uma intenção muito simples: preservar a imagem autêntica do seu bisavô, contestando algumas das visões e leituras propostas por pretensos especialistas.
É um livro muito directo, que chama clones aos Eças que alguns inventam e diz porquê.
O autor sustenta que, a pretexto do interesse por Eça, há personalidades que se servem do grande escritor como mero veículo de promoção pessoal, e ataca o que diz serem alguns auto-nomeados especialistas como seja o caso de José Hermano Saraiva, Agustina Bessa-Luís, João Gaspar Simões e Maria Filomena Mónica.»
Retirado daqui. Ver também site da editora.
Desconfio sempre destes livros que se auto promovem como polémicos e arrasadores, e ainda por cima detentores de uma verdade única. Isto de livros escritos por familiares (este é escrito por um diletante bisneto de Eça de Queirós...) é quase sempre o mesmo! Podem não ter tido contacto com a pessoa em causa, mas julgam-se sempre superiores a todos os outros biógrafos.
É certo que Eça de Queirós teve os seus biógrafos e estudiosos com certos tiques e manias, que moldaram e adulteraram a visão da vida e obra deste grande escritor, mas o que perpassa neste livro é a vontade de relevar muita coisa (polémica de preferência) e mostrar ser melhor na esperança que este seja um canhenho que venda muito pelo Natal.
«Ora ananases» digo eu....
O livro é editado pela Guerra & Paz e custa 17 euros.

"Nasce na Póvoa do Varzim, no dia 25 de Novembro. Filho natural do juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, então delegado do procurador régio em Ponte de Lima, e de Carolina Augusta Pereira de Eça, residente em Viana do Castelo - foi entregue aos cuidados de uma ama em Vila do Conde, em cuja igreja matriz foi baptizado a 1 de Dezembro." site

Eça no Triplov - http://www.triplov.com/letras/eca_de_queiroz/index.html. Tem artigos interessantes e uma entrevista a Filomena Mónica.
Comentários Recentes
Ao fim de tanto tem
para enviar um email precis
faz falta mais homens destes, ai